Boom da inteligência artificial pode dificultar o controle da inflação pelos bancos centrais

Investimentos recordes em chips, data centers e infraestrutura digital impulsionam a economia, mas também aumentam a demanda por energia, equipamentos e mão de obra especializada

O avanço da inteligência artificial e inflação passou a formar um dos novos desafios da economia mundial. Embora a tecnologia tenha potencial para elevar a produtividade das empresas, a corrida por chips, data centers e infraestrutura digital também movimenta grandes volumes de investimentos e aumenta a demanda por energia, equipamentos e profissionais especializados.

O Banco de Compensações Internacionais, conhecido pela sigla BIS, alertou que esse movimento pode dificultar a leitura feita pelos bancos centrais. Isso acontece porque a inteligência artificial pode estimular simultaneamente a oferta e a demanda, produzindo efeitos diferentes sobre os preços ao longo do tempo. 

Por que a inteligência artificial pode pressionar a inflação

A construção de data centers exige grandes quantidades de energia, terrenos, equipamentos de refrigeração, servidores e semicondutores. Quando diversas empresas disputam esses recursos ao mesmo tempo, os preços podem subir, especialmente quando a produção não consegue acompanhar rapidamente o crescimento da demanda.

Além disso, os investimentos bilionários das empresas de tecnologia ajudam a movimentar a atividade econômica. Novas obras, contratações e compras de equipamentos geram renda e estimulam o consumo, mas também podem reforçar pressões inflacionárias no curto prazo.

Nesse cenário, a relação entre inteligência artificial e inflação não é direta. A tecnologia pode reduzir custos no futuro, mas sua implantação exige investimentos que podem elevar preços antes que os ganhos de produtividade apareçam.

Bancos centrais enfrentam sinais contraditórios

Normalmente, os bancos centrais aumentam os juros quando precisam controlar a inflação e reduzem as taxas quando desejam estimular a economia. Entretanto, o ciclo de investimentos em inteligência artificial cria sinais mais difíceis de interpretar.

De um lado, o crescimento dos investimentos indica uma economia aquecida, com maior demanda por crédito, energia e mão de obra. Do outro, a automação pode tornar as empresas mais produtivas e permitir que elas produzam mais utilizando menos recursos.

O BIS avalia que ainda não está claro quando os ganhos de produtividade relacionados à tecnologia aparecerão em escala suficiente para compensar os custos iniciais. Essa incerteza aumenta o risco de decisões inadequadas sobre juros, principalmente quando os bancos centrais também enfrentam petróleo caro, tensões geopolíticas e novas tarifas comerciais. 

Inteligência artificial e inflação afetam países de formas diferentes

Os efeitos da inteligência artificial e inflação não devem ser iguais em todas as economias. Países com forte produção de semicondutores, energia disponível e grandes empresas tecnológicas podem receber mais investimentos e crescer com maior velocidade.

Estados Unidos, China, Coreia do Sul e Taiwan estão entre os mercados mais beneficiados pelo atual ciclo tecnológico. Os investimentos ligados à inteligência artificial vêm ajudando essas economias a apresentar desempenho superior ao de países menos integrados à cadeia digital. 

Por outro lado, economias que dependem da importação de chips, equipamentos e energia podem enfrentar custos maiores. Além disso, países com infraestrutura elétrica limitada poderão encontrar dificuldades para atender ao crescimento acelerado dos data centers.

Valorização das empresas também exige atenção

O entusiasmo com a inteligência artificial não está restrito à economia real. Empresas associadas à tecnologia também registraram forte valorização nos mercados financeiros, apoiadas pela expectativa de aumento da produtividade e dos lucros.

Essa alta pode estimular o consumo quando investidores se sentem mais ricos. No entanto, o BIS alerta para o risco de os preços dos ativos se distanciarem dos resultados efetivamente entregues pelas empresas, aumentando a possibilidade de correções nos mercados. 

O desafio está em distinguir uma transformação econômica sustentável de um período de expectativas excessivas. Embora a inteligência artificial tenha aplicações concretas, parte dos retornos financeiros esperados ainda depende de resultados futuros.

Tecnologia sustenta parte do crescimento mundial

Apesar dos riscos, os investimentos tecnológicos continuam sendo uma das principais forças de sustentação da economia mundial. O Fundo Monetário Internacional projeta crescimento global de 3% em 2026 e de 3,4% em 2027, destacando que o ciclo tecnológico ajuda a compensar parte dos efeitos negativos dos conflitos e da alta da energia. 

Entretanto, o FMI também elevou sua projeção para a inflação global de 2026. A instituição estima uma taxa geral de 4,7%, reforçando que o crescimento econômico acontece em um ambiente de pressão sobre os preços. 

O que pode acontecer nos próximos meses

Os bancos centrais deverão acompanhar principalmente o consumo de energia dos data centers, a disponibilidade de semicondutores, os salários do setor tecnológico e os ganhos reais de produtividade apresentados pelas empresas.

Caso os investimentos continuem elevando a demanda sem um aumento correspondente da produção, os juros poderão permanecer altos por mais tempo. Porém, se a inteligência artificial permitir que empresas ampliem sua eficiência e reduzam custos, a tecnologia poderá ajudar a controlar os preços no médio e no longo prazo.

Por enquanto, a inteligência artificial representa duas forças ao mesmo tempo: sustenta o crescimento econômico, mas também torna o combate à inflação mais complexo. A velocidade com que os ganhos de produtividade aparecerem será determinante para definir qual desses efeitos terá maior peso.

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