Combater a obesidade exige mais do que mudar estilo de vida, dizem cientistas

Embora nos últimos anos tenham surgido avanços importantes no tratamento da obesidade, incluindo medicamentos que foram considerados entre os principais progressos científicos de 2023, a doença continua a crescer de forma preocupante em todo o mundo. Estimativas apontam que em 2020 cerca de 14% da população global vivia com obesidade, e projeções sugerem que esse índice pode alcançar 24% em 2035, atingindo crianças, adolescentes e adultos de forma expressiva.

Esse cenário é ainda mais evidente na América Latina, onde a prevalência de sobrepeso e obesidade é alta em diversos países, incluindo Brasil, México, Chile, Argentina e Colômbia. Para especialistas que participaram de um estudo publicado na revista Nature Metabolism, a compreensão do problema exige uma visão muito mais ampla do que apenas recomendar hábitos alimentares saudáveis ou prática de exercícios.

Os pesquisadores, reunindo cientistas da Unicamp, USP e Universidad Nacional Autónoma de México, defendem que fatores sociais, ambientais, culturais e econômicos têm um papel central na epidemia de obesidade e muitas vezes superam as tentativas de atribuir a culpa exclusivamente ao indivíduo. Eles identificaram oito determinantes principais, entre eles ambiente físico, exposição alimentar, interesses econômicos e políticos, desigualdade social e acesso limitado ao conhecimento científico, que explicam por que a obesidade tem crescido tão rapidamente na região e por que soluções simples não são suficientes.

Para os autores, as mudanças no estilo de vida continuam importantes, mas precisam ser apoiadas por ações coletivas e políticas públicas que considerem as especificidades de cada comunidade. Isso inclui incentivar o consumo de alimentos frescos e tradicionais, regular alimentos ultraprocessados, que tendem a ser mais calóricos e menos nutritivos, e promover a educação alimentar desde a primeira infância. Além disso, eles apontam que gestantes e crianças devem ser um foco prioritário de políticas preventivas, já que fatores que atuam desde antes do nascimento podem influenciar fortemente o risco de obesidade na vida adulta.

Obesidade como um desafio multidimensional

Os estudos mostram que a obesidade não é simplesmente uma consequência de escolhas individuais ou falta de força de vontade, mas sim um problema que emerge de determinantes sociais e estruturais. Fatores como acesso limitado a alimentos saudáveis, desigualdades econômicas que dificultam escolhas nutricionais adequadas e um ambiente urbano que favorece estilos de vida sedentários contribuem para a epidemia de obesidade e exigem respostas que vão além da orientação clínica tradicional.

Essa abordagem mais ampla reconhece que as pessoas em contextos mais vulneráveis muitas vezes enfrentam barreiras significativas para adotar hábitos que ajudam no controle de peso. A própria transição alimentar observada em países de renda média e baixa, que migraram de realidades de desnutrição para ambientes com abundância de alimentos ultraprocessados, é vista como um fator que pode ter consequências epigenéticas e perpetuar a obesidade em gerações futuras.

Especialistas também destacam que o acesso ao conhecimento científico ainda é desigual na América Latina, com menos recursos dedicados à pesquisa regional sobre obesidade em comparação com países do Norte Global, o que limita a compreensão local dos fatores que impulsionam a doença.

Nesse contexto, combater a obesidade de forma eficaz exige uma estratégia ampla e integrada, que combine políticas públicas, educação, acesso a alimentos nutricionais adequados e mudanças estruturais no ambiente social, muito além de apenas recomendação de mudanças no estilo de vida individual.

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