Morcego-vampiro suga sangue de homem enquanto ele dormia no Rio de Janeiro; ciência explica comportamento

Caso registrado na Ilha Grande foi descrito por pesquisadores da Uerj. Ataques a humanos são considerados raros, mas chamam atenção pelo risco de transmissão da raiva.

Um homem de 33 anos teve o sangue sugado por um morcego-vampiro enquanto dormia na Ilha Grande, em Angra dos Reis (RJ). O ataque ocorreu de forma tão discreta que ele não sentiu a mordida nem chegou a ver o animal. O morador percebeu o episódio somente depois de encontrar sangue no pé e no chão.

Pesquisadores ligados à Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) descreveram o caso no artigo científico “Humanos no cardápio: relato de ataque de morcego-vampiro na Ilha Grande-RJ e implicações para a saúde”, publicado em 2026 na revista Physis.

Embora morcegos-vampiros possam consumir sangue humano, pessoas não representam sua principal fonte de alimento em condições naturais. Além disso, os pesquisadores consideram esses episódios raros. O caso, entretanto, ajuda a explicar como esses animais encontram suas presas, por que a mordida pode passar despercebida e quais cuidados de saúde devem receber atenção após uma exposição.

Apenas três espécies viventes de morcegos se alimentam exclusivamente de sangue

Entre as mais de 1,4 mil espécies conhecidas de morcegos, apenas três espécies viventes são hematófagas, ou seja, dependem exclusivamente de sangue para sobreviver: Desmodus rotundus, Diaemus youngii e Diphylla ecaudata.

As três ocorrem em uma extensa faixa das Américas, do norte da Argentina ao norte do México.

No Brasil, o Desmodus rotundus, conhecido como morcego-vampiro-comum, aparece com maior frequência. Já as outras duas espécies são consideradas mais raras e possuem alimentação predominantemente baseada no sangue de aves, segundo as informações apresentadas no estudo.

Humanos, porém, estão longe de representar a primeira opção alimentar do morcego-vampiro-comum. O artigo aponta que ataques contra pessoas são eventos raros e aparecem com maior frequência nas regiões Norte e Nordeste do Brasil.

Ao mesmo tempo, a literatura analisada pelos pesquisadores relaciona parte desses episódios a alterações ambientais e à redução repentina da disponibilidade de animais domésticos e silvestres que poderiam servir como fonte de alimento.

Morcego usa visão, olfato e ecolocalização para encontrar a presa

O comportamento real desses animais é bastante diferente da imagem popularizada por filmes e histórias de vampiros.

Em vez de atacar o pescoço de uma pessoa durante um voo, o Desmodus rotundus combina visão, olfato e ecolocalização para localizar uma possível fonte de alimento.

Além disso, receptores nervosos sensíveis à temperatura localizados no focinho ajudam o morcego a encontrar regiões mais vascularizadas do corpo.

Depois de identificar a presa, o animal pode se aproximar caminhando de maneira silenciosa. Em seguida, utiliza os dentes incisivos para produzir um pequeno ferimento superficial.

Anticoagulante na saliva mantém sangue fluindo

Após produzir o corte, o morcego não “suga” o sangue da mesma maneira representada na ficção. Ele ingere por lambeduras o sangue que flui da pequena lesão.

Nesse processo, sua saliva possui uma substância anticoagulante conhecida como Draculina, que ajuda a impedir a coagulação e mantém o fluxo sanguíneo durante a alimentação.

Segundo a explicação apresentada no material, um morcego pode consumir entre 10 e 20 mililitros de sangue antes de deixar o local.

O pequeno tamanho do ferimento também ajuda a explicar por que uma pessoa pode permanecer dormindo.

“Por vezes, a pessoa não percebe porque o processo ocorre à noite, enquanto a presa dorme profundamente, e a mordida é bem pequena e praticamente indolor”, explica o especialista citado no relato.

Os pesquisadores também descrevem a lesão como superficial e produzida pelos incisivos superiores. Além disso, os dedos dos pés estão entre as regiões frequentemente atingidas, justamente a área onde o morador da Ilha Grande encontrou o ferimento.

Cães haviam sido atacados antes do episódio com o morador

O caso descrito pelos pesquisadores não ocorreu sem sinais anteriores da presença de morcegos hematófagos nas proximidades.

A residência fica em uma região de floresta próxima a um rio. Conforme o relato documentado no artigo, os cães que viviam no local haviam sofrido três ataques nos cerca de 20 dias anteriores ao episódio envolvendo o homem.

Esse histórico indica que os animais já encontravam fontes de alimentação naquele ambiente antes da exposição humana relatada.

Entretanto, a ocorrência não significa que morcegos-vampiros normalmente procurem pessoas como alimento. Conforme destacado pelo estudo, ataques humanos permanecem incomuns e podem estar associados a condições ambientais específicas.

Mordidas de morcegos exigem atenção por causa da raiva

Além do comportamento do animal, o artigo chama atenção para uma questão de saúde pública: morcegos podem transmitir o vírus da raiva.

Por isso, uma mordida ou outro contato de risco com morcegos não deve ser ignorado, inclusive quando o ferimento parece pequeno. Como a lesão pode ser discreta e praticamente indolor, algumas exposições podem passar despercebidas inicialmente.

Diante de uma exposição, a orientação é procurar rapidamente um serviço de saúde para avaliação e definição das medidas preventivas adequadas. A raiva é uma doença extremamente grave após o aparecimento dos sintomas, enquanto a profilaxia realizada corretamente depois da exposição pode prevenir o desenvolvimento da doença.

Além disso, não se deve tentar capturar ou manipular um morcego com as mãos desprotegidas. A avaliação das circunstâncias do contato deve ficar a cargo dos serviços de saúde e vigilância responsáveis.

Caso ajuda pesquisadores a compreender exposição humana

O episódio da Ilha Grande envolvendo um morcego-vampiro e um homem de 33 anos chama atenção justamente por representar um tipo pouco frequente de interação entre esses animais e seres humanos.

O relato também mostra como o comportamento alimentar do Desmodus rotundus pode tornar a exposição difícil de perceber: o animal se aproxima silenciosamente, produz uma pequena lesão e utiliza o anticoagulante presente na saliva para manter o sangue fluindo.

Ainda assim, seres humanos não aparecem como a fonte preferencial de alimento desses morcegos. O principal alerta do estudo está relacionado à necessidade de reconhecer episódios de exposição e procurar atendimento, sobretudo devido ao risco associado à transmissão da raiva.

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