Austrália enfrenta crise de extinções apesar de abrigar uma das faunas mais únicas do planeta

País lidera as extinções de mamíferos e perde cerca de quatro espécies por década. Lista oficial registra 67 extinções, mas pesquisadores estimam que ao menos cem espécies de plantas e animais já tenham desaparecido.

A Austrália enfrenta uma das mais graves crises de extinção de espécies do planeta. Conhecido mundialmente pela diversidade de sua fauna e flora, o país reúne espécies que não existem em nenhum outro lugar. No entanto, a combinação entre destruição de habitats, animais invasores, doenças e mudanças climáticas ameaça parte desse patrimônio natural.

Mais de 80% das espécies australianas são endêmicas, ou seja, não ocorrem naturalmente em outras regiões do mundo. Por isso, quando uma delas desaparece da Austrália, muitas vezes também desaparece definitivamente do planeta.

A lista oficial do governo australiano registra 67 espécies extintas. Entretanto, pesquisadores estimam que pelo menos cem espécies de animais e plantas já tenham desaparecido para sempre. Além disso, cientistas acreditam que o número real possa ser ainda maior.

Atualmente, o país perde aproximadamente quatro espécies por década e lidera o mundo em extinções de mamíferos.

Por que tantas espécies estão desaparecendo na Austrália?

Não existe uma única causa para a crise. Pelo contrário, diferentes ameaças se acumulam e tornam a sobrevivência das espécies cada vez mais difícil.

Uma delas é a destruição dos habitats naturais. Áreas importantes para a biodiversidade continuam perdendo vegetação para atividades como agricultura, mineração, exploração de madeira e expansão urbana.

Além disso, espécies introduzidas pelo ser humano provocaram profundas alterações nos ecossistemas australianos. Gatos ferais, raposas, coelhos, sapos-cururu e formigas-de-fogo, por exemplo, competem com animais nativos, destroem habitats ou atuam como predadores.

Plantas invasoras também representam um problema. A lantana, por exemplo, ocupa áreas naturais e dificulta o desenvolvimento da vegetação nativa.

Consequentemente, espécies que antes ocupavam grandes extensões do continente passaram a sobreviver em pequenas populações isoladas.

Doenças também ameaçam animais australianos

As doenças representam outra frente da crise ambiental.

A clamídia afeta populações de coalas em diferentes regiões. Enquanto isso, o fungo quitrídio, que ataca principalmente a pele dos anfíbios, já contribuiu para o desaparecimento de espécies de sapos.

Dessa forma, animais que já enfrentam perda de habitat e redução populacional precisam lidar também com doenças capazes de comprometer sua reprodução e sobrevivência.

O problema se torna ainda mais grave quando uma espécie permanece restrita a poucas regiões. Nesses casos, uma epidemia, um incêndio ou outro evento extremo pode atingir uma parcela significativa da população de uma só vez.

Mudanças climáticas aumentam pressão sobre a biodiversidade

As mudanças climáticas acrescentam outra camada de risco.

Temperaturas extremas já provocam mortalidade em animais como as raposas-voadoras, que podem cair das árvores durante ondas intensas de calor. Ao mesmo tempo, alterações no clima afetam fontes de alimento, disponibilidade de água e áreas de reprodução.

Além disso, eventos extremos ampliam a destruição dos habitats.

Um dos exemplos mais dramáticos ocorreu durante o chamado “Verão Negro” de 2019 e 2020. Os incêndios florestais daquele período afetaram aproximadamente três bilhões de animais, segundo estimativas citadas por pesquisadores.

Nos anos seguintes, enchentes de grandes proporções também atingiram diferentes regiões do país. Assim, espécies que já estavam fragilizadas enfrentaram novos impactos antes mesmo de suas populações conseguirem se recuperar.

Numbat mostra que recuperação ainda é possível

Em meio ao cenário preocupante, o numbat, também conhecido como mirmecóbio, tornou-se um exemplo de que ações de conservação podem apresentar resultados.

O pequeno marsupial, que lembra uma combinação de esquilo com tamanduá, já ocupou grande parte do sul da Austrália. Hoje, porém, possui uma distribuição muito menor.

A floresta de Dryandra, no sudoeste australiano, tornou-se um de seus principais refúgios.

Quando o biólogo Tony Friend chegou à região na década de 1980, encontrou uma população inferior a 50 animais. Desde então, pesquisadores e voluntários passaram a monitorar os numbats, controlar ameaças e desenvolver estratégias para recuperar a população.

Atualmente, estima-se que existam cerca de 3 mil numbats na Austrália. Em Dryandra, a população cresceu aproximadamente dez vezes.

Recentemente, a situação da espécie também apresentou melhora na classificação internacional, passando para a categoria de quase ameaçada.

Reprodução em cativeiro ajuda espécies ameaçadas

Programas de reprodução também fazem parte da estratégia australiana para evitar novas extinções.

No zoológico de Perth, por exemplo, pesquisadores reproduzem numbats com o objetivo de posteriormente liberar alguns animais em áreas protegidas. A iniciativa ajuda não apenas a aumentar a população, mas também a preservar sua diversidade genética.

Projetos semelhantes criaram novas populações de outras espécies ameaçadas.

Entretanto, o processo possui limitações. Muitos animais ainda não conseguem sobreviver em ambientes totalmente abertos por causa da presença de predadores introduzidos.

Por isso, algumas populações permanecem em reservas cercadas. Embora essas áreas aumentem a proteção, elas também exigem manejo permanente e podem enfrentar problemas relacionados à superpopulação e ao cruzamento entre indivíduos aparentados.

Austrália pode ter perdido mais espécies do que mostram dados oficiais

Determinar exatamente quantas espécies desapareceram é um desafio.

Enquanto a lista oficial australiana registra 67 extinções, pesquisadores calculam que pelo menos cem espécies de animais e plantas já tenham desaparecido.

Além disso, cientistas continuam estudando organismos pouco conhecidos. Em alguns casos, uma espécie pode desaparecer antes mesmo de receber uma descrição científica completa.

Ao mesmo tempo, cresce o número de animais e plantas classificados como ameaçados.

Esse cenário preocupa especialistas porque a perda de biodiversidade não afeta somente a natureza. Ecossistemas saudáveis participam da produção de alimentos, manutenção da água, agricultura e diferentes atividades econômicas.

O turismo australiano também depende diretamente das paisagens e espécies que tornaram o país conhecido internacionalmente.

Quanto a Austrália investe para combater as extinções?

O financiamento tornou-se um dos principais pontos do debate.

O governo federal investe diretamente cerca de 700 milhões de dólares australianos por ano em proteção da natureza. Entretanto, conservacionistas defendem investimentos muito maiores para interromper e reverter a perda de biodiversidade.

Segundo estimativas apresentadas por especialistas, seriam necessários aproximadamente A$ 33 bilhões, equivalentes a cerca de 1% do PIB australiano.

Além disso, ambientalistas criticam subsídios concedidos a atividades que podem pressionar ecossistemas, entre elas mineração, agricultura intensiva e setores ligados aos combustíveis.

O governo australiano, por sua vez, afirma que mantém o compromisso de promover a recuperação ambiental em parceria com estados, municípios, comunidades e organizações ambientais.

Austrália tenta interromper perda de biodiversidade até 2030

O governo estabeleceu a meta de interromper e reverter a perda de biodiversidade até 2030.

Nos últimos anos, o país também ampliou iniciativas relacionadas à redução das emissões de carbono, energias renováveis e recuperação de espécies ameaçadas.

Além disso, uma reforma da legislação ambiental busca fortalecer as regras de proteção e a fiscalização.

Apesar disso, pesquisadores afirmam que somente novas leis não serão suficientes. Para eles, o país também precisa garantir recursos, fiscalização, recuperação de habitats e controle permanente das espécies invasoras.

Extinções podem provocar impactos muito além da fauna

A crise australiana ocorre em meio ao que cientistas descrevem como a sexta extinção em massa da história do planeta, desta vez impulsionada principalmente pelas atividades humanas.

Na Austrália, porém, o problema ganha uma dimensão especialmente preocupante devido ao elevado número de espécies exclusivas do continente.

Cada desaparecimento também pode provocar consequências em cadeia. Animais participam da polinização, dispersão de sementes, controle de outras espécies e manutenção dos ecossistemas. Portanto, a retirada de um componente pode alterar todo o ambiente.

Para os povos originários australianos, a perda também possui dimensão cultural. Muitas espécies fazem parte de tradições, histórias e da relação dessas comunidades com seus territórios.

A recuperação do numbat mostra que investimentos contínuos em conservação podem evitar extinções. No entanto, o crescimento do número de espécies ameaçadas indica que iniciativas isoladas não bastam.

O desafio da Austrália agora é impedir que um dos países com maior biodiversidade única do mundo continue também entre aqueles que mais rapidamente perdem espécies.

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