Fitch alerta para risco de correção global no mercado de inteligência artificial

Agência afirma que gastos recordes, endividamento crescente e avaliações elevadas aumentam a vulnerabilidade da economia e dos mercados financeiros

O risco de correção da inteligência artificial tornou-se uma das principais ameaças à estabilidade econômica mundial. Segundo a agência Fitch Ratings, o crescimento acelerado dos investimentos e das avaliações de empresas ligadas à tecnologia pode estar avançando mais rapidamente do que a capacidade do setor de gerar receitas e retornos financeiros.

Em seu relatório global de riscos do terceiro trimestre, a Fitch destacou que uma eventual queda das empresas de inteligência artificial poderia atingir não apenas investidores, mas também o crédito, o consumo e o crescimento econômico. Isso acontece porque o setor ganhou peso crescente nas bolsas, nos investimentos empresariais e no financiamento por meio de dívidas. 

Risco de correção da inteligência artificial preocupa a Fitch

A preocupação da Fitch está relacionada à distância entre os valores alcançados pelas empresas e os resultados financeiros que ainda precisam ser comprovados.

Grandes companhias de tecnologia estão investindo centenas de bilhões de dólares na construção de data centers, no desenvolvimento de modelos de inteligência artificial e na aquisição de chips avançados. Entretanto, permanece a dúvida sobre quando esses investimentos produzirão receitas suficientes para justificar os custos.

Segundo a Fitch, uma mudança nas expectativas pode provocar uma venda generalizada de ações e títulos ligados ao setor. Como a inteligência artificial está cada vez mais conectada ao desempenho da economia dos Estados Unidos, uma correção significativa poderia apresentar consequências globais. 

Gastos com inteligência artificial podem chegar a US$ 700 bilhões

A Fitch estima que os investimentos de Alphabet, Amazon, Meta e Microsoft poderão crescer mais de 75% em 2026, alcançando aproximadamente US$ 700 bilhões.

Além disso, Amazon, Alphabet, Nvidia, Meta, Oracle e SpaceX emitiram, juntas, cerca de US$ 182 bilhões em títulos de dívida com grau de investimento. A emissão de títulos corporativos nos Estados Unidos cresceu 26% no primeiro semestre, impulsionada principalmente pela busca de recursos para projetos relacionados à inteligência artificial. 

O endividamento não significa necessariamente que essas empresas enfrentam dificuldades. Porém, ele amplia a exposição do sistema financeiro caso os retornos esperados não sejam alcançados.

Valores se aproximam do período da bolha da internet

Outro sinal de alerta está nas avaliações das empresas negociadas nas bolsas. De acordo com a Fitch, a relação ajustada entre os preços das ações e os lucros das companhias que integram o índice S&P 500 se aproximou dos níveis observados no fim da década de 1990, durante o crescimento da chamada bolha da internet.

Naquele período, empresas de tecnologia tiveram uma forte valorização baseada na expectativa de transformação econômica provocada pela internet. Quando ficou evidente que parte delas não conseguiria entregar os resultados esperados, o mercado enfrentou uma grande correção.

Isso não significa que a história necessariamente se repetirá. A inteligência artificial já possui aplicações comerciais e gera receitas. No entanto, a comparação mostra que os investidores estão pagando valores elevados com base em ganhos que ainda dependem do desempenho futuro.

Bolsas asiáticas sentem aumento da desconfiança

Os sinais de cautela já começaram a aparecer nos mercados. Ações de fabricantes asiáticos de semicondutores registraram quedas diante das dúvidas sobre os custos do ciclo de investimentos e o aumento da concorrência tecnológica chinesa.

O índice Kospi, da Coreia do Sul, chegou a cair mais de 10% em uma única sessão, acionando um mecanismo de interrupção temporária das negociações. O mercado havia mais do que triplicado de valor nos 12 meses anteriores a junho, mas depois perdeu mais de um terço em relação ao pico. 

Investidores também passaram a observar com maior atenção os resultados financeiros de Microsoft, Amazon, Meta e Apple. As empresas estão entre as maiores financiadoras da expansão da inteligência artificial, e seus balanços devem indicar se os investimentos já estão produzindo retorno suficiente.

Como uma correção poderia atingir a economia

O risco de correção da inteligência artificial não está limitado à queda das ações. A valorização das empresas tecnológicas ajudou a aumentar o patrimônio de investidores e sustentou parte do consumo nos Estados Unidos.

Ao mesmo tempo, os investimentos em tecnologia da informação acrescentaram diretamente cerca de 1,4 ponto percentual ao crescimento econômico norte-americano no primeiro trimestre, segundo estimativa citada pela Fitch. 

Caso o mercado sofra uma queda prolongada, empresas poderão reduzir investimentos, cancelar projetos e diminuir contratações. Investidores também poderão reduzir o consumo, enquanto bancos e fundos poderão adotar critérios mais rígidos para conceder crédito.

Dessa forma, uma correção inicialmente concentrada no setor tecnológico poderia se espalhar para outros segmentos da economia.

Inteligência artificial continua com potencial econômico

Apesar do alerta, a Fitch não afirma que o avanço da inteligência artificial seja insustentável. A tecnologia pode aumentar a produtividade, reduzir custos e transformar setores como indústria, finanças, saúde, transporte e comunicação.

O ponto central é que os mercados podem ter antecipado parte considerável desses benefícios. Portanto, as empresas precisarão demonstrar que conseguem transformar investimentos elevados em receitas, produtividade e lucros consistentes.

O Banco de Compensações Internacionais também alertou que o financiamento da inteligência artificial está cada vez mais dependente de dívidas e estruturas financeiras complexas. A instituição considera que o excesso de investimento pode produzir um ciclo de expansão e queda semelhante ao registrado em outros períodos de transformação tecnológica. 

O que observar nos próximos meses

O futuro do mercado dependerá principalmente dos balanços das grandes empresas, do crescimento das receitas com inteligência artificial e do nível de endividamento necessário para sustentar novos investimentos.

Também será importante acompanhar a competição entre Estados Unidos e China, os preços dos chips e a capacidade energética necessária para o funcionamento de novos data centers.

A inteligência artificial continua sendo uma das principais forças de crescimento da economia mundial. Entretanto, o alerta da Fitch mostra que o setor entrou em uma etapa decisiva: os resultados financeiros precisarão acompanhar as expectativas criadas nos mercados.

 

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