ANPD investiga ataque cibernético que atingiu dados de 500 mil pacientes

Processo contra o Instituto Saúde e Cidadania apura possíveis falhas na proteção de dados sensíveis e na comunicação às pessoas afetadas; entidade contesta que tenha ocorrido vazamento

A Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) instaurou um Processo Administrativo Sancionador contra o Instituto Saúde e Cidadania (Isac) após um ataque cibernético ocorrido em janeiro de 2025 atingir sistemas da organização. Segundo a apuração da agência apresentada no processo, o incidente envolveu aproximadamente 500 mil registros de pacientes, incluindo informações de crianças, adolescentes e idosos.

A investigação busca identificar possíveis infrações à Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD), principalmente em relação às medidas de segurança adotadas e à comunicação do incidente às pessoas potencialmente afetadas. O Isac, por outro lado, contesta que tenha ocorrido vazamento de dados e afirma que análises técnicas não encontraram evidências de extração ou divulgação indevida das informações.

O processo ainda está em análise. Portanto, a ANPD não aplicou penalidade ao instituto até o momento, conforme informado pela própria entidade em manifestação enviada à CNN Brasil.

Ataque de ransomware atingiu sistemas do Isac

O próprio Isac comunicou o incidente à ANPD. Segundo as informações apresentadas pela agência, a organização sofreu um ataque do tipo ransomware, modalidade na qual criminosos podem criptografar arquivos e tornar sistemas ou informações inacessíveis.

A apuração envolve cerca de 500 mil registros. Desse total, 78.772 estariam relacionados a crianças e adolescentes, enquanto 47.921 seriam de idosos.

De acordo com o processo descrito no material, as informações envolvidas incluiriam dados de identificação, como nome e data de nascimento, além de informações de saúde. Entre elas aparecem históricos de exames, prontuários, prescrições, atendimentos ambulatoriais, internações, diagnósticos e procedimentos.

No entanto, esse é justamente um dos pontos contestados pelo Isac. O instituto sustenta que o incidente provocou indisponibilidade temporária de sistemas administrativos, mas não resultou em extração ou divulgação de dados de pacientes.

ANPD apura possíveis violações à LGPD

A investigação da ANPD não se limita ao ataque em si. A agência também analisa como o instituto protegia as informações antes do incidente e como respondeu depois dele.

Entre os pontos sob apuração estão a possível ausência de medidas técnicas e administrativas adequadas para proteger dados pessoais, a comunicação às pessoas afetadas e o cumprimento dos princípios de prevenção, responsabilização e prestação de contas previstos na LGPD.

Além disso, a ANPD analisa a disponibilização de informações relacionadas ao encarregado pelo tratamento de dados pessoais.

Segundo a apuração apresentada, o Isac teria inicialmente argumentado que o episódio não representava risco ou dano significativo aos pacientes porque os criminosos teriam acessado informações administrativas e dados relacionados a contratos encerrados.

Entretanto, a ANPD aponta que o instituto não teria apresentado elementos técnicos suficientes para comprovar essa conclusão após questionamentos da autoridade.

Comunicação aos pacientes também entrou na investigação

Outro ponto central envolve a forma como as pessoas potencialmente atingidas receberam informações sobre o incidente.

Conforme a apuração da ANPD apresentada no material, o Isac não teria comunicado individualmente os afetados de maneira considerada adequada pela agência.

A autoridade também apontou ausência de informações como a data do incidente, a natureza dos dados envolvidos, os grupos de pessoas atingidos e as medidas adotadas antes e depois do ataque.

Esses elementos são relevantes porque a LGPD e as normas da ANPD estabelecem obrigações específicas para a Comunicação de Incidentes de Segurança (CIS) quando um episódio pode representar risco ou dano relevante aos titulares.

O auto de infração também sustenta que a falta de embasamento técnico para determinadas alegações dificultou a análise das medidas corretivas adotadas.

Processo pode resultar em sanções previstas pela LGPD

Após a instauração do Processo Administrativo Sancionador, o Isac possui prazo para apresentar sua defesa dentro do procedimento conduzido pela ANPD.

Caso a autoridade conclua, ao final do processo, que houve infrações, poderá aplicar as medidas previstas na legislação de acordo com a gravidade e as circunstâncias verificadas.

O artigo 52 da LGPD prevê diferentes sanções administrativas, desde advertências até multas e outras restrições relacionadas ao tratamento de dados pessoais. A eventual penalidade dependerá da conclusão do processo e das regras de dosimetria adotadas pela ANPD.

Portanto, a abertura do procedimento não representa uma condenação do Isac. A responsabilidade e uma eventual sanção ainda dependem da análise administrativa.

Isac nega vazamento de dados de pacientes

Em manifestação encaminhada à CNN Brasil, o Instituto Saúde e Cidadania apresentou uma versão diferente sobre o alcance do incidente.

Segundo a entidade, o ataque de janeiro de 2025 criptografou arquivos e provocou indisponibilidade temporária de sistemas administrativos. Entretanto, o Isac afirma que suas análises técnicas “não identificaram evidências de extração, exfiltração ou divulgação indevida de dados pessoais”.

O instituto também informou que recuperou os sistemas a partir de cópias de segurança e que o episódio não provocou perda de informações.

“O incidente não afetou a assistência prestada aos pacientes nem o funcionamento das unidades de saúde sob gestão do Instituto”, afirmou.

Além disso, o Isac disse que comunicou espontaneamente o caso à ANPD, registrou ocorrência junto às autoridades e divulgou um comunicado público. Depois do episódio, segundo a organização, houve reforço nos mecanismos de proteção, monitoramento e resposta a incidentes.

Por fim, o instituto ressaltou que o procedimento administrativo continua em análise e que nenhuma sanção foi aplicada.

Estados esclarecem relação com o instituto

O material também apresenta esclarecimentos de governos estaduais sobre a atuação do Isac.

A Secretaria de Estado da Saúde do Tocantins informou que manteve contrato com o instituto exclusivamente durante o período da pandemia de Covid-19. Atualmente, segundo a pasta, não existe contrato ou parceria em execução.

Já a Secretaria de Estado da Saúde de Goiás afirmou que o Isac nunca administrou unidades pertencentes à rede estadual de saúde.

As informações são relevantes porque o instituto atua ou atuou na gestão de serviços públicos de saúde em diferentes regiões, embora a relação contratual possa variar conforme o estado e o período.

Caso coloca segurança de dados de saúde em evidência

A investigação da ANPD sobre o ataque cibernético ao Isac chama atenção principalmente pela natureza das informações envolvidas. Dados relacionados à saúde recebem proteção especial pela LGPD por integrarem a categoria de dados pessoais sensíveis.

Ao mesmo tempo, existe uma divergência relevante que o processo ainda precisa esclarecer. A apuração da ANPD aponta problemas relacionados à proteção e à comunicação do incidente, enquanto o Isac sustenta que não encontrou evidências de vazamento ou exfiltração.

Assim, o procedimento administrativo deverá determinar se houve descumprimento da legislação e, em caso positivo, quais medidas serão aplicadas. Até a conclusão, não há decisão definitiva nem penalidade contra o instituto.

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