Durigan diz que crise das Casas Bahia não indica problema generalizado na economia brasileira

Ministro afirma que juros elevados pressionam setores dependentes de crédito, como o varejo, mas rejeita diagnóstico de crise ampla. Governo também promete conter despesas obrigatórias, revisar benefícios e reforçar o arcabouço fiscal.

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou que a situação enfrentada pelas Casas Bahia não representa uma crise generalizada da economia brasileira. Em entrevista ao GloboNews Mais, ele disse que os juros elevados afetam diretamente o varejo, mas argumentou que dados históricos não sustentam a ideia de um aumento generalizado das falências e recuperações judiciais no país.

Segundo Durigan, setores dependentes de financiamento sentem com maior intensidade os efeitos dos juros altos. O varejo, por exemplo, precisa de crédito tanto para financiar sua relação com fornecedores quanto para facilitar as compras dos consumidores.

“Quando a gente compara a série histórica mais ampla, houve um decréscimo de falências e recuperações judiciais, e o varejo fica atrás, inclusive, de setores como a indústria”, afirmou.

Além de comentar a situação das empresas, Durigan defendeu novas medidas fiscais. Segundo ele, o governo pretende reduzir despesas obrigatórias, melhorar a eficiência de programas sociais, revisar benefícios tributários e continuar ajustando o arcabouço fiscal.

Por que os juros elevados pressionam o varejo?

Durigan explicou que o varejo possui uma relação especialmente forte com o crédito. De um lado, as empresas precisam financiar estoques e compromissos com fornecedores. Do outro, muitos consumidores dependem de parcelamentos e financiamentos para realizar compras.

Por isso, quando os juros permanecem elevados, o crédito fica mais caro. Como consequência, empresas e famílias tendem a reduzir operações financiadas, o que pode diminuir a atividade econômica do setor.

“No fundo, depende de crédito para trás, para os seus fornecedores, e depende do crédito para frente, para as famílias, para os consumidores que compram”, explicou o ministro.

Ainda segundo Durigan, esse cenário ajuda a compreender parte das dificuldades enfrentadas pelo varejo. Entretanto, ele rejeitou a interpretação de que o caso das Casas Bahia demonstre a existência de uma crise econômica generalizada.

“Há uma série de elementos que explicam, em grande medida, o que está acontecendo, mas que não justificam um argumento político mais escandaloso sobre crise geral, porque não há”, declarou.

Durigan diz que falências e recuperações judiciais caíram na comparação histórica

Para sustentar sua avaliação, o ministro citou uma série histórica mais ampla sobre falências e recuperações judiciais.

Segundo ele, os números mostram redução desses processos ao longo do período analisado. Além disso, Durigan afirmou que o varejo aparece atrás de outros segmentos, como a indústria.

O ministro fez essa avaliação ao responder ao argumento, atribuído por ele à oposição, de que a situação das Casas Bahia serviria como evidência de problemas mais amplos na economia.

Assim, Durigan separou a situação específica de empresas e setores dos indicadores gerais da atividade econômica.

Governo promete “seguir apertando o arcabouço fiscal”

Além do cenário empresarial, Durigan abordou as contas públicas. Segundo ele, o governo pretende reforçar o controle fiscal e conter o crescimento das despesas.

O ministro afirmou que o Congresso já aprovou medidas para limitar gastos. Além disso, o Orçamento deste ano passou por bloqueios, enquanto novas contenções de despesas obrigatórias devem abrir espaço fiscal no próximo ano.

“A gente vai seguir apertando o arcabouço fiscal para que a gente tenha um resultado cada vez melhor do ponto de vista fiscal”, afirmou.

Segundo Durigan, esse movimento também busca colaborar com a política monetária. Dessa forma, enquanto o Banco Central atua por meio dos juros, o Ministério da Fazenda pretende contribuir com medidas relacionadas às receitas e despesas públicas.

Quais gastos o governo pretende reduzir?

Durigan apontou diferentes frentes que o governo pretende analisar. Entre elas estão despesas obrigatórias, benefícios tributários, programas sociais e gastos com pessoal.

Segundo o ministro, o objetivo não consiste apenas em reduzir despesas. O governo também pretende aumentar a eficiência dos recursos já disponíveis e abrir mais espaço para investimentos.

“O que eu estou sinalizando para frente é: nós vamos ter que diminuir o gasto obrigatório, melhorar a eficiência dos programas sociais e seguir recompondo receita dentro de uma discussão de justiça”, declarou.

Além disso, Durigan citou a necessidade de revisar benefícios considerados inadequados e otimizar a estrutura do Estado.

O ministro mencionou, nesse contexto, questões relacionadas às aposentadorias do serviço público, aos militares e ao funcionamento da máquina pública.

Despesa com pessoal terá limite de crescimento, diz ministro

Outra frente envolve os gastos com servidores.

De acordo com Durigan, o próximo ano terá limite de 0,6% para o aumento das despesas com pessoal. Na avaliação dele, essa restrição exige que o governo busque mais produtividade por meio de tecnologia e melhorias administrativas.

Com isso, a Fazenda pretende priorizar investimentos em sistemas e eficiência, reduzindo a necessidade de ampliar gastos por meio de novas contratações.

Durigan também defendeu a abertura de espaço para despesas discricionárias e investimentos. Segundo ele, uma estrutura fiscal mais eficiente pode contribuir para aumentar a produtividade e estimular o investimento privado.

Juros elevados afetam diferentes setores

Ao tratar dos juros, Durigan reconheceu que as dificuldades não atingem apenas o varejo.

“Todo mundo está enfrentando alguma dificuldade em relação à taxa de juros”, afirmou.

Entretanto, o ministro disse que a Fazenda não trabalha para atender isoladamente aos interesses de um determinado segmento. Ele citou os setores financeiro, agropecuário e varejista como exemplos.

Segundo Durigan, o objetivo da política econômica deve ser melhorar o bem-estar da população de maneira mais ampla.

Além disso, ao comentar a velocidade das mudanças defendidas pela equipe econômica, afirmou que o governo avançaria mais rapidamente caso as decisões dependessem apenas da Fazenda.

Governo promete detalhar R$ 10 bilhões em medidas

Durigan também afirmou que R$ 10 bilhões estarão “muito bem colocados” dentro das medidas preparadas pelo governo.

Segundo ele, a equipe econômica pretende apresentar em Brasília como as iniciativas poderão reduzir a pressão sobre as despesas obrigatórias nesse valor ou até acima dele.

“Não temos dificuldade em dar transparência sobre essas questões. Vamos cuidar da economia todo dia”, declarou.

Além disso, o ministro afirmou que o governo pretende retirar subsídios e continuar buscando alternativas para melhorar as contas públicas.

Arcabouço fiscal poderá mudar?

Questionado sobre uma eventual redução do limite de crescimento das despesas previsto no arcabouço fiscal, Durigan evitou antecipar números.

O ministro não confirmou, por exemplo, uma possível redução da taxa de crescimento de 2% para 1,5%.

“Não vou cravar número. De novo, vamos cravar uma trajetória de sustentabilidade com redução da dívida a longo prazo”, respondeu.

Portanto, a equipe econômica sinaliza novas medidas fiscais, mas ainda não apresentou todos os parâmetros que poderão integrar eventuais mudanças.

O que esperar dos próximos passos da Fazenda?

As declarações de Durigan indicam que o governo pretende concentrar sua agenda econômica em duas frentes. A primeira envolve reduzir a pressão das despesas obrigatórias e melhorar o resultado fiscal. A segunda busca criar condições que, segundo a equipe econômica, possam colaborar para um ambiente de juros menos restritivo.

Ao mesmo tempo, o ministro rejeita usar a crise das Casas Bahia como retrato de toda a economia brasileira. Para Durigan, os juros ajudam a explicar dificuldades enfrentadas por empresas dependentes de crédito, mas não demonstram, por si só, a existência de uma crise generalizada.

Agora, a expectativa se volta para a apresentação das próximas medidas fiscais e para os detalhes sobre os R$ 10 bilhõesmencionados pelo ministro.

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