A redução das compras de carne bovina pela China começa a afetar frigoríficos, pecuaristas e outros setores ligados à produção brasileira.
Segundo a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes, a Abiec, as empresas têm poucas alternativas para redirecionar os volumes que normalmente seriam enviados ao mercado chinês.
Embora Estados Unidos e Rússia tenham ampliado sua participação nas compras, nenhum dos dois mercados consegue substituir a demanda da China.
China limita importações de carne brasileira
A cota preferencial para a entrada de carne bovina brasileira na China é de 1,1 milhão de toneladas.
Dentro desse limite, os produtos estão sujeitos a uma tarifa de 12%.
Como a cota já foi totalmente utilizada, os embarques acima desse volume passam a enfrentar uma tarifa adicional de 55%.
As salvaguardas adotadas pelo governo chinês devem permanecer em vigor por três anos.
Exportadores anteciparam embarques
Os frigoríficos brasileiros aceleraram as exportações para a China durante o primeiro semestre.
A estratégia buscou antecipar os embarques antes da entrada em vigor das novas restrições.
Ao mesmo tempo, os Estados Unidos voltaram a ganhar força como destino da carne brasileira, enquanto a Rússia recuperou espaço entre os principais compradores.
Apesar desse avanço, a China continua sendo o maior mercado externo do setor.
“Não existe outro comprador com o apetite da China. Nenhum outro mercado consegue absorver os volumes que a China compra”, afirmou Roberto Perosa, presidente da Abiec.
Frigoríficos iniciam ajustes na produção
A redução dos embarques já afeta diferentes áreas da cadeia produtiva.
Além dos frigoríficos, o impacto alcança pecuaristas, operadores de câmaras frias e empresas farmacêuticas que utilizam subprodutos do gado.
Segundo a Abiec, algumas empresas começaram a demitir funcionários.
Outras colocaram trabalhadores em licença coletiva para ajustar a produção à demanda mais fraca.
Como as restrições chinesas devem durar três anos, o setor se prepara para um período prolongado de adaptação.
Cenário pode acelerar concentração do setor
A queda das exportações e a redução das margens podem acelerar a consolidação da indústria frigorífica.
Grandes empresas poderão adquirir concorrentes menores que enfrentem dificuldades financeiras.
Esse movimento tende a aumentar a concentração do setor entre os grupos com maior capacidade de enfrentar a redução da demanda externa.
Exportações devem cair cerca de 10%
A Abiec prevê uma queda significativa dos embarques de carne bovina para a China.
A estimativa anterior apontava exportações próximas de 1,65 milhão de toneladas para o mercado chinês em 2025.
Com as novas restrições, as exportações brasileiras totais de carne bovina devem recuar cerca de 10% neste ano.
A expectativa também é de preços menores no segundo semestre, devido à redução da disputa internacional pela carne produzida no Brasil.
Risco no mercado europeu aumenta incerteza
Além da queda nas compras chinesas, o Brasil enfrenta a possibilidade de perder espaço na União Europeia.
O bloco europeu cobra o cumprimento de regras contra o uso excessivo de antimicrobianos em animais destinados à produção de alimentos.
Embora a Europa represente uma parcela menor das exportações brasileiras, as decisões tomadas pelo bloco costumam influenciar outros mercados.
“Quando a União Europeia toma uma decisão, isso afeta o mundo inteiro, mesmo que os volumes que vendemos para lá sejam relativamente pequenos”, declarou Perosa.
Representantes do setor apresentaram propostas técnicas ao governo brasileiro e tentam preservar o acesso ao mercado europeu.
Estados Unidos podem ampliar importações
Os Estados Unidos aparecem como uma possível alternativa para parte da carne brasileira.
O país enfrenta redução do rebanho bovino, oferta mais limitada e preços elevados no mercado interno.
Mesmo com os embarques brasileiros abaixo dos níveis de 2025 nos primeiros cinco meses do ano, os norte-americanos devem importar um volume recorde de carne bovina.
A carne do Brasil também ficou fora da tarifa adicional de 25% anunciada pelos Estados Unidos para a maioria dos produtos brasileiros.
Ainda assim, o mercado norte-americano não possui capacidade para compensar sozinho a queda das compras chinesas.
Mercado interno ganha importância
O rebanho bovino brasileiro deve permanecer próximo de 195 milhões de cabeças em 2026, praticamente o mesmo volume registrado no ano anterior.
O mercado interno continua sendo a principal fonte de demanda para a indústria.
No entanto, as exportações desempenham papel importante no equilíbrio da oferta e dos preços.
Com a redução das compras da China e o aumento das incertezas na Europa, o setor brasileiro de carne bovina enfrenta um cenário mais difícil para manter esse equilíbrio.






