Documentário sobre Elon Musk tem quase 4 horas e usa até avatar de IA; veja 5 destaques

Dirigido pelo vencedor do Oscar Alex Gibney, “Musk” estreou no Festival de Cinema de Veneza, reúne diferentes momentos da trajetória do empresário e adota uma abordagem predominantemente crítica

O novo documentário sobre Elon Musk transforma a trajetória do empresário em uma produção de quase quatro horas. Dirigido por Alex Gibney, vencedor do Oscar por “Um Táxi para a Escuridão”, “Musk” tem 225 minutos de duração e estreou no Festival de Cinema de Veneza com uma abordagem amplamente crítica sobre o empresário ligado à Tesla, SpaceX e X.

Musk não concedeu entrevista para a produção. Ainda assim, aparece de uma maneira incomum: o diretor utiliza um avatar criado com inteligência artificial para reproduzir declarações públicas do empresário. Além disso, o filme reúne entrevistas, reportagens e registros anteriores para construir seu retrato.

A produção também aborda as promessas tecnológicas de Musk, a compra do Twitter, posteriormente transformado em X, e sua passagem pelo Departamento de Eficiência Governamental (DOGE) durante o governo de Donald Trump. As interpretações e críticas apresentadas no documentário, porém, refletem a abordagem de Gibney e de seus entrevistados, e não devem ser tratadas automaticamente como conclusões factuais independentes.

1. Elon Musk não participou de entrevista para o documentário

Alex Gibney tentou entrevistar Musk durante a produção. Entretanto, quando o projeto se tornou público, em março de 2023, o empresário afirmou nas redes sociais que o documentário seria uma produção difamatória.

Gibney respondeu na época: “Como você sabe?”.

Sem uma entrevista com o personagem central, o diretor adotou outra estratégia. O documentário apresenta um avatar de Elon Musk gerado por inteligência artificial, que reproduz declarações feitas publicamente pelo empresário.

A escolha também dialoga com um tema associado às declarações de Musk sobre a possibilidade de a realidade ser uma simulação. Dessa forma, Gibney transforma a própria tecnologia em um recurso narrativo para representar o empresário.

2. David Byrne ajudou a criar uma música usando frases de Musk

O músico David Byrne aparece indiretamente em outro elemento da produção. Ele participou da composição de Let Me Sell You a Dream, música utilizada nos créditos finais.

Segundo o material divulgado, a letra foi construída inteiramente com frases ditas por Musk no passado.

O título se conecta a uma das principais linhas críticas apresentadas pelo documentário. Alguns entrevistados argumentam que Musk consegue atrair investimentos ao apresentar projetos futuros ambiciosos, incluindo a colonização de Marte e o desenvolvimento de veículos totalmente autônomos.

O astrofísico e escritor Adam Becker, por exemplo, contesta no filme a viabilidade da colonização marciana nos termos apresentados pelo empresário. Musk, por outro lado, sustenta publicamente sua capacidade de antecipar tendências tecnológicas.

“Sou muito bom em prever o futuro”, declarou Musk à revista The Economist, conforme a entrevista citada no material. Ele também reconheceu que suas previsões nem sempre se concretizam dentro dos prazos inicialmente imaginados.

3. Filme relaciona gestão do Twitter à passagem pelo governo

Outro eixo do documentário compara decisões tomadas por Musk depois da aquisição do Twitter com sua atuação posterior no Departamento de Eficiência Governamental (DOGE).

Zoë Schiffer, autora de Extremely Hardcore: Inside Elon Musk’s Twitter, afirma no documentário que a redução da equipe da rede social ocorreu sem que o grupo responsável pelas mudanças compreendesse completamente todas as funções desempenhadas pelos funcionários dispensados.

Schiffer interpreta a atuação posterior de Musk no DOGE como uma aplicação da mesma estratégia. Essa comparação representa a avaliação da autora e a linha narrativa adotada pelo documentário.

O filme aborda ainda os cortes defendidos pelo departamento e as dificuldades para alcançar as metas propostas. Antes de deixar a administração Trump, Musk declarou ao Washington Post que o DOGE havia se transformado em um “bode expiatório para tudo”.

4. Filme de 1937 vira metáfora para o poder de Musk

Alex Gibney também recorre a uma produção britânica de quase 90 anos para construir uma metáfora sobre poder e suas consequências.

O documentário apresenta trechos de “O Homem que Fazia Milagres”, filme de fantasia lançado em 1937 e baseado em uma história de H.G. Wells.

Na trama, um homem comum interpretado por Roland Young recebe poderes praticamente ilimitados. Depois, tenta utilizar essas capacidades para transformar rapidamente a sociedade, mas acaba provocando consequências catastróficas.

Ao inserir essas cenas em “Musk”, Gibney estabelece um paralelo narrativo entre poder, ambição e consequências imprevistas. Trata-se, portanto, de uma escolha editorial do diretor para reforçar sua interpretação sobre a trajetória do empresário.

5. Documentário recebeu avaliações positivas em Veneza

A recepção inicial da crítica após a apresentação em Veneza foi amplamente positiva, segundo o material fornecido.

A Variety classificou “Musk” como uma obra “contundente e importante” e destacou o domínio de Gibney sobre a linguagem documental.

Já o britânico The Telegraph atribuiu quatro estrelas ao longa e definiu a produção como um “ataque implacável e minuciosamente detalhado”.

Musk, entretanto, reagiu negativamente. Em uma publicação no X, classificou o documentário como um “ataque difamatório” e também criticou sua duração, chamando a produção de entediante.

As avaliações mostram, portanto, perspectivas bastante diferentes: enquanto parte da crítica especializada elogiou a construção documental, o próprio personagem central rejeitou a abordagem adotada pelo cineasta.

“Musk” constrói retrato crítico do empresário

Com 225 minutos de duração, “Musk” procura reunir diferentes fases da vida pública e empresarial de Elon Musk em uma única narrativa. Apesar da extensão, boa parte das informações apresentadas já apareceu anteriormente em reportagens, entrevistas e declarações públicas.

O diferencial está na maneira como Alex Gibney organiza esse material. O diretor utiliza entrevistas, registros históricos, inteligência artificial, música e referências cinematográficas para construir um retrato assumidamente crítico.

Ao mesmo tempo, a ausência de uma entrevista inédita com Musk faz com que a perspectiva direta do empresário apareça principalmente por meio de declarações públicas anteriores e de suas reações ao projeto.

Assim, o documentário sobre Elon Musk não se apresenta apenas como uma biografia convencional. A produção utiliza a trajetória do empresário para discutir poder, tecnologia, promessas sobre o futuro e as consequências de decisões tomadas por uma das figuras mais influentes do setor tecnológico.

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