Fundos de metais preciosos e cripto registram fortes entradas, enquanto moeda americana perde força. UBS vê tendência de depreciação no médio prazo, mas JPMorgan considera cedo para falar em mudança estrutural.
A tese de dólar fraco voltou a ganhar espaço nos mercados internacionais após investidores ampliarem a exposição ao ouro e às criptomoedas. Na semana passada, ETFs de metais preciosos receberam US$ 4,6 bilhões, enquanto fundos ligados a criptoativos captaram US$ 2,8 bilhões. Ao mesmo tempo, o dólar acumulou forte desvalorização no mês diante das principais moedas.
O movimento reacendeu o chamado debasement trade, estratégia baseada na expectativa de que desequilíbrios fiscais e intervenções para reduzir o custo da dívida podem, ao longo do tempo, diminuir a confiança na moeda americana. Nesse cenário, investidores procuram ativos de oferta limitada, como ouro, commodities e Bitcoin.
Entretanto, ainda não existe consenso sobre uma mudança estrutural. Enquanto o UBS acredita que a diversificação para fora do dólar deve continuar, o JPMorgan avalia que os movimentos recentes podem representar principalmente uma desmontagem de posições. Assim, os próximos dados de inflação e as sinalizações do Federal Reserve devem ajudar a testar a força dessa tese.
Recompra de títulos americanos reacendeu discussão
Um dos gatilhos recentes veio do Tesouro dos Estados Unidos, que decidiu ampliar a recompra de títulos de longo prazo em um momento no qual os juros dos papéis de 30 anos rondavam o maior patamar desde 2007.
Após o anúncio, os rendimentos dos títulos longos recuaram e o dólar perdeu força. Além disso, o mercado de criptomoedas reagiu depois de meses de menor atividade. O efeito sobre os juros, porém, perdeu intensidade posteriormente, e os rendimentos voltaram a subir.
Nesse contexto, investidores começaram novamente a discutir se os Estados Unidos caminham para um ambiente favorável à desvalorização gradual da moeda.
A lógica do debasement trade parte da preocupação de que níveis elevados de dívida pública e políticas destinadas a limitar o custo desse endividamento possam pressionar o valor da moeda no longo prazo. Ainda assim, essa interpretação depende da evolução da política monetária, da inflação e das contas públicas americanas.
Ouro e criptomoedas recebem bilhões de dólares
Os fluxos recentes oferecem um dos sinais mais concretos da retomada dessa estratégia. Na semana passada, ETFs de metais preciosos captaram US$ 4,6 bilhões, com a maior parte do dinheiro direcionada ao ouro.
Somente o SPDR Gold Shares (GLD), maior ETF de ouro do mundo, recebeu US$ 3,4 bilhões. Enquanto isso, fundos de criptomoedas registraram entradas de US$ 2,8 bilhões.
Por outro lado, ETFs de ações apresentaram captação mais fraca. Além disso, fundos relacionados ao setor financeiro americano registraram fortes retiradas.
Essa movimentação mostra uma mudança na alocação dos investidores. Contudo, os fluxos de uma semana, isoladamente, não confirmam uma tendência estrutural de abandono do dólar.
UBS prevê depreciação gradual do dólar
O UBS mantém uma leitura favorável à tese. Em relatório divulgado nesta terça-feira (25), a equipe liderada pelo diretor global de investimentos, Mark Haefele, afirmou que espera a continuidade da diversificação para fora da moeda americana.
“Achamos que a diversificação gradual para fora do dólar americano, e uma tendência de depreciação no médio e longo prazo, vai permanecer intacta”, escreveu a equipe.
Segundo o banco, tensões no Oriente Médio e preços mais altos do petróleo ainda podem oferecer suporte ao dólar no curto prazo. No entanto, fatores como a trajetória fiscal dos Estados Unidos, as incertezas relacionadas à política comercial e a redução da participação da moeda americana nas reservas de alguns países sustentariam a expectativa de enfraquecimento em horizontes mais longos.
Nesse cenário, o ouro aparece entre os principais beneficiados. O UBS projeta a cotação da onça em US$ 5.400 dentro de 12 meses.
Além disso, o banco destaca as compras realizadas por bancos centrais. Segundo o relatório citado, o banco central da China ampliou suas reservas em 20 toneladas em julho, no maior movimento mensal desde outubro de 2023.
Commodities também entram na estratégia do UBS
A visão do UBS não fica limitada ao ouro. O banco também defende exposição a commodities diante da expectativa de demanda por energia e metais industriais.
No petróleo, a instituição avalia que a procura permanece forte. Já nos metais industriais, o UBS enxerga suporte vindo da eletrificação e dos investimentos em infraestrutura necessária para inteligência artificial.
No mercado de moedas, o banco projeta o euro em US$ 1,20, embora mantenha posição neutra sobre a divisa. Ao mesmo tempo, demonstra preferência por moedas com juros mais elevados, como a libra esterlina e a coroa norueguesa.
Portanto, a visão do UBS combina expectativa de dólar mais fraco com diversificação para diferentes classes de ativos.
JPMorgan questiona tese de enfraquecimento estrutural
O JPMorgan apresenta uma interpretação diferente. Para os estrategistas de câmbio do banco, a recente queda do dólar pode refletir mais uma desmontagem de posições do que uma mudança estrutural.
“Os mercados de câmbio nos parecem estar forçando a busca por uma explicação para a fraqueza do dólar”, afirmaram os estrategistas no material citado.
Primeiro, o banco destaca que a recompra de títulos pelo Tesouro não equivale à impressão de dinheiro. A operação substitui determinados papéis por outros e, segundo essa interpretação, não injeta automaticamente nova liquidez no sistema bancário.
Além disso, o JPMorgan considera o volume relativamente pequeno. A operação citada envolve cerca de US$ 14 bilhões diante de mais de US$ 30 trilhões em títulos americanos negociáveis e de uma dívida pública superior a US$ 40 trilhões.
Por fim, o banco argumenta que outros sinais normalmente associados a um processo de enfraquecimento estrutural da moeda ainda não apareceram de maneira consistente, especialmente nas expectativas de inflação e na diferenciação entre moedas com base na qualidade fiscal.
Fed pode ser decisivo para confirmar ou enfraquecer a tese
Na avaliação do JPMorgan, a hipótese de desvalorização estrutural ganharia força caso o Federal Reserve aceitasse inflação persistentemente mais alta para facilitar o financiamento das despesas públicas.
Por enquanto, o banco não identifica evidências suficientes desse cenário. Pelo contrário, suas métricas apontaram um tom mais duro na ata da reunião de julho do Fed. Além disso, segundo os dados apresentados, o mercado ainda atribuía mais de 40% de probabilidade a uma alta dos juros em setembro.
Os próximos acontecimentos, portanto, podem fornecer sinais importantes. O índice de preços de gastos com consumo (PCE) de julho será divulgado nesta quarta-feira (26). O JPMorgan projeta avanço mensal de 0,32% no núcleo, acima dos 0,20% do consenso citado da Bloomberg.
Depois, na sexta-feira (28), Kevin Warsh fará seu primeiro discurso como presidente do Federal Reserve em Jackson Hole, segundo as informações apresentadas. Um discurso mais duro sobre inflação e juros poderia fortalecer o dólar e pressionar o ouro. Uma sinalização mais branda, por outro lado, poderia favorecer a aposta na desvalorização da moeda.
Dólar mais fraco ainda não trouxe fluxo estrangeiro para a Bolsa brasileira
No Brasil, parte do movimento internacional já apareceu no câmbio e nos juros, mas ainda não provocou uma entrada consistente de capital estrangeiro na Bolsa.
O real valorizou 1,6% na semana passada e acumula alta de 6,1% no ano, enquanto a curva de juros futuros recuou. No mesmo período, o Ibovespa avançou 2,5% em reais.
Medido pelo MSCI Brazil, o mercado brasileiro subiu 2,7% em dólar na semana, diante de avanço médio de 0,8% dos mercados emergentes. Entretanto, os números apresentados indicam que esse desempenho não ocorreu por entrada líquida de investidores estrangeiros.
A B3 registrou saída líquida de R$ 8,4 bilhões de capital estrangeiro na semana e de R$ 22 bilhões em agosto. Apesar disso, o saldo acumulado em 2026 permanecia positivo em R$ 14,4 bilhões, abaixo dos R$ 25,5 bilhões registrados em todo o ano anterior.
Além disso, ETFs brasileiros negociados no exterior perderam US$ 268 milhões em uma semana e US$ 868 milhões em quatro semanas.
Commodities ajudam Bolsa, mas desconto permanece
Os números sugerem que uma rotação entre setores teve papel importante no desempenho recente da Bolsa brasileira.
Segundo classificação do Itaú BBA, o bloco de commodities acumula valorização de 25,3% em 2026, enquanto o setor financeiro registra queda de 11,5% somente em agosto.
Ainda assim, o desempenho mensal continua negativo. O Ibovespa recua 3,9% em reais no mês, enquanto o MSCI Brazil perde 3,5% em dólar. No mesmo período, os emergentes avançam 3,2%, conforme os números apresentados.
Ao mesmo tempo, o mercado brasileiro permanece negociando abaixo de sua média histórica. O Ibovespa está em aproximadamente 8,1 vezes o lucro projetado para os próximos 12 meses, cerca de 21% abaixo da média da última década.
Retorno da tese de dólar fraco ainda precisa de confirmação
As fortes entradas em ouro e criptomoedas, combinadas à queda recente da moeda americana, representam sinais de que a tese de dólar fraco voltou ao radar dos investidores.
Entretanto, as interpretações continuam divididas. O UBS acredita em uma depreciação gradual no médio e longo prazo. Já o JPMorgan considera insuficientes as evidências disponíveis para concluir que existe uma mudança estrutural.
Por isso, inflação, política monetária, trajetória fiscal dos Estados Unidos e comportamento dos fluxos internacionais serão determinantes para os próximos movimentos. No Brasil, enquanto isso, o real já sente parte dos efeitos, mas a Bolsa ainda não registra uma retomada consistente do capital estrangeiro.







