Quimono azul no jiu-jítsu: Marcello Tetel revela como fez Mundial parar e mudou tradição

Faixa-preta formado por Carlson Gracie relembrou episódio de 1996 que abriu espaço para o uso de quimonos coloridos nas competições e transformou o mercado da modalidade.

Marcello Tetel revelou como a estreia do quimono azul no jiu-jítsu provocou a interrupção de um Campeonato Mundial em 1996 e ajudou a transformar uma tradição do esporte. O faixa-preta, formado por Carlson Gracie, contou os bastidores do episódio durante participação no programa Mundo da Luta, apresentado por Ana Hissa e Gleidson Venga.

Na época, os atletas utilizavam quimonos brancos nas competições. Entretanto, Tetel e Carlão Barreto buscavam alternativas para atrair patrocinadores e conseguir viver profissionalmente do jiu-jítsu. Assim, uma estratégia comercial acabou abrindo caminho para uma mudança que permanece presente nas academias e nos campeonatos.

Marcello Tetel buscava patrocínio para viver do jiu-jítsu

Antes de se tornar faixa-preta, Marcello Tetel enfrentou dificuldades para transformar o jiu-jítsu em sua principal fonte de renda. Naquele período, as competições ofereciam poucas oportunidades financeiras, especialmente para atletas que ainda não haviam alcançado as graduações mais altas.

Além disso, muitos patrocínios se limitavam ao fornecimento de roupas e equipamentos. Por isso, Tetel e Carlão Barreto decidiram buscar empresas de outros setores para apoiar suas carreiras.

Os dois viajaram do Rio de Janeiro para São Paulo com dinheiro suficiente apenas para transporte e alimentação. Depois de receberem uma resposta negativa na primeira tentativa, encontraram um empresário interessado em conversar.

Entretanto, o possível patrocinador pediu que retornassem no dia seguinte. Mesmo sem recursos para uma estadia planejada, os atletas permaneceram na cidade e conseguiram fechar o acordo.

A parceria garantiu roupas, apoio financeiro e um contrato de patrocínio. Posteriormente, eles também conquistaram o apoio de uma marca de água mineral no Rio de Janeiro.

Como surgiu a ideia de usar o quimono azul no Mundial?

A proposta surgiu quando Carlão Barreto mencionou um quimono de judô conhecido como White Tiger. O modelo tinha duas cores, branco e azul, e era utilizado na Europa.

A partir dessa referência, os atletas decidiram experimentar um quimono colorido no Mundial de jiu-jítsu.

Tetel entrou em contato com a confederação para consultar as regras. Quem atendeu foi Luca Atalla, que explicou as exigências relacionadas às medidas do uniforme, mas não mencionou uma restrição específica à cor.

— Ele falou que a regra (da medida) dos quatro dedos do kimono tá valendo, não falou a respeito de cor, que tinha que ser branco. Que era tudo o que eu queria! — relembrou.

Com essa informação, os atletas procuraram o patrocinador responsável pelos uniformes e solicitaram a produção dos quimonos azuis.

Além de Tetel e Carlão, Guerrinha também recebeu o novo modelo. Entretanto, Tetel decidiu levar apenas o uniforme azul para competir, enquanto os companheiros tinham alternativas.

Quimono azul provocou paralisação do Campeonato Mundial

O momento decisivo aconteceu quando Marcello Tetel se apresentou para lutar usando o quimono azul.

Segundo o ex-atleta, Carlos Gracie Jr., conhecido como Carlinhos Gracie e então presidente da confederação, reagiu imediatamente ao uniforme diferente.

— Na hora que o Carlinhos (Gracie, presidente da Confederação de jiu-jítsu) olhou aquilo, falou: “Que é isso? Tá maluco? De jeito nenhum!” — contou Tetel.

O atleta argumentou que havia contratos de patrocínio envolvidos. Além disso, explicou que a exposição das marcas representava uma oportunidade de crescimento financeiro para os competidores e para a modalidade.

Carlão Barreto também participou da conversa e destacou as dificuldades enfrentadas pelos atletas que não pertenciam à família Gracie.

Depois de ouvir os argumentos, Carlinhos autorizou a participação dos lutadores. Entretanto, antes de liberar o combate, decidiu interromper o campeonato para explicar a situação.

— Tá bom, tá bom, vocês vão lutar, mas só um minuto. Segura as lutas aí! — relembrou Tetel, reproduzindo a fala do dirigente.

Segundo seu relato, os atletas foram chamados à mesa diretora. Em seguida, a organização anunciou que permitiria o uso dos quimonos azuis em razão dos contratos comerciais apresentados.

Mudança abriu espaço para novas oportunidades comerciais

Para Marcello Tetel, a autorização representou uma conquista que ultrapassou o resultado esportivo daquele Mundial.

Afinal, seu principal objetivo era demonstrar que os atletas poderiam atrair patrocinadores e construir carreiras financeiramente sustentáveis.

— Cara, eu não precisava nem ter lutado o campeonato porque já tava resolvida a minha vida, já tinha resolvido ali, cumprido o meu objetivo — afirmou.

Na avaliação do faixa-preta, o episódio também contribuiu para ampliar as possibilidades comerciais do jiu-jítsu. Com o passar dos anos, os quimonos azuis se tornaram comuns nas competições e passaram a integrar os catálogos das principais fabricantes de equipamentos.

Entretanto, o relato não detalha quando as entidades esportivas formalizaram as mudanças nas regras sobre as cores dos uniformes.

Quem é Marcello Tetel e qual sua importância no jiu-jítsu?

Marcello Tetel construiu uma trajetória que ultrapassou sua participação como competidor. Formado por Carlson Gracie, o brasileiro atuou como professor, empresário e promotor de eventos de artes marciais.

Entre suas experiências está o trabalho com jiu-jítsu em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, durante o período inicial de desenvolvimento da modalidade na região.

Além disso, Tetel atuou como empresário de Murilo Bustamante na época em que o lutador conquistou o cinturão do UFC. Posteriormente, também participou da organização de eventos de MMA.

Durante sua participação no Mundo da Luta, o faixa-preta recuperou histórias que ajudam a compreender a profissionalização dos esportes de combate.

Assim, a história do quimono azul no jiu-jítsu, contada por Marcello Tetel, mostra como a busca por patrocínio contribuiu para questionar uma tradição. O episódio de 1996 permanece como um marco na memória do atleta e na evolução comercial da modalidade.

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