Pesquisa do INCA, Fiocruz e UnB desenvolve versão humanizada e não viral da terapia celular. Resultados pré-clínicos indicam potencial para reduzir custos e abrir caminho para produção nacional destinada ao SUS.
A terapia CAR-T humanizada pode ampliar o acesso ao tratamento de determinados tipos de câncer pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Pesquisadores do Instituto Nacional de Câncer (INCA), da Fiocruz e da Universidade de Brasília (UnB) trabalham no desenvolvimento de uma tecnologia nacional com produção potencialmente mais barata e escalável.
O grupo publicou na revista científica Frontiers in Immunology resultados sobre dois novos produtos CAR-T anti-CD19 humanizados, desenvolvidos por meio de um sistema não viral. Nos testes pré-clínicos apresentados pelos pesquisadores, uma das versões, chamada H1, conseguiu controlar o câncer de forma duradoura em camundongos e apresentou desempenho comparável ao da terapia CAR-T original.
Apesar dos resultados promissores, a tecnologia ainda precisa avançar para testes em seres humanos. Portanto, os dados atuais não significam que a terapia já esteja disponível no SUS. O objetivo dos pesquisadores é justamente criar condições para que, no futuro, o tratamento possa alcançar pacientes da rede pública.
Terapia CAR-T mudou tratamento de alguns cânceres
A imunoterapia ganhou espaço nas últimas décadas e passou a ser considerada um dos pilares do tratamento contra o câncer. Nesse cenário, a terapia com células CAR-T trouxe novas possibilidades principalmente para determinados cânceres hematológicos.
A técnica utiliza as próprias células de defesa do paciente. Primeiro, profissionais coletam as células T. Depois, os pesquisadores modificam geneticamente essas células para que reconheçam determinadas características das células cancerosas.
Em seguida, o paciente recebe novamente as células modificadas. Dessa forma, elas passam a identificar o tumor como um alvo e podem atacá-lo.
Por isso, pesquisadores descrevem o CAR-T como uma espécie de “medicamento vivo e personalizado”. Além de combater as células tumorais, as células modificadas podem se multiplicar e continuar atuando no organismo.
Resultados mostram mudança no prognóstico de pacientes
A chegada da terapia CAR-T mudou o cenário para alguns pacientes com cânceres que não respondiam mais aos tratamentos disponíveis.
Segundo os dados apresentados pelos pesquisadores, antes do CAR-T, pacientes com linfoma difuso de grandes células B refratário apresentavam uma taxa de resposta global de 26%. Além disso, apenas 7% alcançavam remissão completa, enquanto a sobrevida mediana chegava a seis meses.
Com a terapia celular, porém, estudos passaram a registrar resultados mais favoráveis.
Uma pesquisa publicada neste ano no periódico Blood Advances, citada pelos pesquisadores, comparou pacientes submetidos ao CAR-T com um grupo histórico equivalente. Nesse levantamento, a sobrevida global em três anos passou de 10% para 59%.
Ao mesmo tempo, a sobrevida livre de progressão aumentou de 6% para 48%.
Esses números ajudam a explicar por que a tecnologia ganhou importância no tratamento de determinados cânceres hematológicos. Entretanto, o alto custo ainda limita seu acesso.
Tratamento com CAR-T pode chegar a R$ 2,7 milhões no Brasil
No Brasil, uma das principais barreiras está justamente no preço.
Segundo os pesquisadores, o tratamento completo com CAR-T na rede privada pode custar entre R$ 2 milhões e R$ 2,7 milhões. O valor varia conforme o produto utilizado e, principalmente, os custos hospitalares envolvidos.
Além disso, a produção da terapia exige componentes de alto custo, incluindo vetores virais utilizados no processo convencional.
Outro ponto envolve a estrutura do CAR responsável por reconhecer o tumor. Nas versões tradicionais analisadas pelos pesquisadores, essa parte deriva de um anticorpo de camundongo.
Diante dessas limitações, as equipes do INCA, da Fiocruz e da UnB trabalham em uma alternativa humanizada e produzida por sistema não viral.
CAR-T humanizada busca reduzir rejeição pelo organismo
No estudo, os cientistas modificaram molecularmente a parte do CAR responsável por reconhecer o tumor. Assim, ela ficou mais semelhante a uma proteína humana.
A estratégia busca diminuir a possibilidade de o sistema imunológico do paciente identificar essa estrutura como estranha e eliminá-la.
Os pesquisadores desenvolveram duas versões, chamadas H1 e H2.
Ambas têm como alvo o CD19, uma proteína encontrada na superfície dos linfócitos B e de outras células da mesma linhagem. Como determinados cânceres hematológicos apresentam esse marcador, o CD19 se tornou um alvo importante das terapias CAR-T.
Nos experimentos de laboratório, as versões humanizadas conseguiram reconhecer células tumorais e ativar a resposta das células T.
Além disso, os pesquisadores observaram a formação de células de memória, consideradas importantes para prolongar a ação da terapia no organismo.
Versão H1 apresentou os resultados mais promissores
Os testes mostraram diferenças importantes entre os dois produtos experimentais.
Segundo o estudo, as versões humanizadas conseguiram eliminar células cancerosas em laboratório com eficiência comparável à terapia original. Esse resultado ocorreu inclusive quando as células tumorais apresentavam quantidades menores da proteína CD19, situação que pode dificultar seu reconhecimento pelas células CAR-T.
Entretanto, os experimentos em animais ajudaram a diferenciar melhor as duas alternativas.
A versão H1 controlou o câncer de forma duradoura em camundongos e manteve os animais vivos por período comparável ao observado com a terapia CAR-T original.
Já a H2 apresentou ligação mais fraca ao CD19. Além disso, essa capacidade diminuiu mais rapidamente, enquanto as células T demonstraram sinais de esgotamento.
Nesse estado, as células de defesa perdem progressivamente a capacidade de continuar atacando o tumor.
Por isso, os pesquisadores identificaram a H1 como a versão mais promissora para avançar em direção aos testes em humanos.
Tecnologia não viral pode ajudar a reduzir custos
Além da humanização, outro ponto relevante da pesquisa está no método de produção.
Os pesquisadores desenvolveram os novos produtos utilizando um sistema não viral. A estratégia pode ajudar a enfrentar um dos componentes de alto custo da fabricação convencional das células CAR-T.
Consequentemente, uma tecnologia nacional mais barata e escalável poderia facilitar a expansão desse tipo de tratamento em um sistema público de grandes dimensões como o SUS.
No entanto, ainda existem etapas científicas e regulatórias antes que isso possa acontecer.
Os resultados divulgados são pré-clínicos. Portanto, os pesquisadores ainda precisam demonstrar a segurança e a eficácia da tecnologia nas próximas fases de desenvolvimento, incluindo estudos em seres humanos.
Pesquisa pode abrir caminho para CAR-T nacional no SUS
A possibilidade de produzir uma terapia CAR-T humanizada no Brasil ganha importância principalmente diante dos custos atuais do tratamento.
Se a estratégia avançar nas próximas etapas e comprovar segurança e eficácia, a produção nacional poderá diminuir a dependência de tecnologias de alto custo e criar condições para ampliar o acesso.
Além disso, os pesquisadores acreditam que a abordagem pode beneficiar outros países e sistemas de saúde com recursos mais limitados.
A expectativa se concentra principalmente em pacientes com neoplasias hematológicas, como leucemias e linfomas, que apresentam recidiva ou deixam de responder aos tratamentos convencionais.
Ainda assim, os resultados não significam que todos os tipos de câncer poderão receber essa terapia. O estudo apresentado concentra-se em células CAR-T direcionadas ao CD19, alvo relacionado a determinados cânceres da linhagem de células B.
Próxima etapa será aproximar tecnologia dos testes em humanos
Os resultados pré-clínicos representam uma etapa importante, mas o caminho até uma eventual incorporação ao SUS ainda envolve novas pesquisas.
Entre as duas versões avaliadas, a H1 apresentou o melhor desempenho e, segundo os pesquisadores, reúne as características mais promissoras para avançar rumo aos estudos em humanos.
Agora, futuras etapas precisarão avaliar de forma mais ampla aspectos como segurança e desempenho da tecnologia antes de uma possível utilização clínica.
Ainda assim, a pesquisa mostra uma estratégia para enfrentar uma das maiores limitações atuais da terapia: o custo. Dessa forma, uma terapia CAR-T humanizada desenvolvida nacionalmente pode representar, no futuro, um caminho para democratizar o acesso a tratamentos avançados contra determinados cânceres no Brasil e aproximá-los dos pacientes do SUS.






