Campos do Jordão além da ‘Suíça brasileira’: portugueses e nordestinos ajudaram a construir a história da cidade

Destino turístico mais alto do Brasil espera receber cerca de 6 milhões de visitantes no ano e 2,2 milhões somente no inverno. Por trás da arquitetura europeia, município reúne influências portuguesas e uma formação marcada pela diversidade brasileira.

Conhecida como “Suíça brasileira”, Campos do Jordão chama atenção pela arquitetura de inspiração europeia, pelas paisagens da Serra da Mantiqueira e pelo clima frio. No entanto, por trás da imagem que transformou o município em um dos principais destinos de inverno de São Paulo existe uma história marcada pela imigração portuguesa e pela contribuição de famílias de diferentes regiões do Brasil, incluindo o Nordeste.

Fundada em 1874 pelo português Matheus da Costa Pinto, Campos do Jordão passou por diferentes ciclos antes de consolidar o turismo como principal atividade econômica. Primeiro, a região teve ligação com caminhos utilizados para o transporte de ouro. Depois, tornou-se referência no tratamento da tuberculose. Por fim, as características naturais e a arquitetura ajudaram a transformar a cidade em destino turístico.

Atualmente, o município estima receber 6 milhões de visitantes durante o ano. Somente na temporada de inverno, cerca de 2,2 milhões de turistas devem circular pela cidade.

Origem de Campos do Jordão começou antes da fundação

A história da ocupação da região começou antes de 1874.

Os primeiros registros de povoamento estão relacionados a uma determinação da Corte portuguesa, que abriu um caminho pela região para transportar ouro das minas de Itajubá, em Minas Gerais, até Pindamonhangaba, em São Paulo.

Embora a rota tenha sido posteriormente fechada, Gaspar Vaz permaneceu na região. Depois, as terras passaram para o brigadeiro português Manuel Rodrigues Jordão, cujo sobrenome acabaria associado ao nome da cidade.

Posteriormente, Matheus da Costa Pinto adquiriu a área e criou uma fazenda de gado. Assim, em 1874, começou oficialmente a história de Campos do Jordão.

Entretanto, foi somente nas décadas seguintes que a ocupação da cidade ganhou maior intensidade.

Tuberculose impulsionou crescimento da cidade

A partir da década de 1920, Campos do Jordão começou a crescer com uma atividade bastante diferente do turismo que domina sua economia atualmente.

Segundo o historiador Edmundo Rocha Campos, o município passou a receber pacientes com tuberculose, principalmente em uma época na qual a medicina ainda não dispunha de medicamentos eficazes contra a doença.

Sobretudo entre as décadas de 1940 e 1960, médicos e pacientes consideravam o clima frio, o ar da serra, o repouso e a alimentação fatores importantes durante o tratamento.

Consequentemente, a cidade recebeu sanatórios e passou a atrair pacientes de diferentes regiões.

Ao mesmo tempo, familiares e amigos começaram a viajar até Campos do Jordão para visitar pessoas internadas. Muitos conheceram as paisagens da Serra da Mantiqueira durante essas viagens e passaram a divulgar o destino.

Dessa forma, uma cidade inicialmente associada ao tratamento de doenças começou a construir sua futura vocação turística.

Turismo cresceu com o declínio dos sanatórios

Com os avanços da medicina e a redução da importância dos tratamentos sanatoriais, Campos do Jordão precisou transformar sua economia.

Nesse período, o turismo ganhou força.

Os visitantes já conheciam o clima frio e as paisagens da região. Além disso, a localização na Serra da Mantiqueira oferecia características diferentes das encontradas em grande parte do estado de São Paulo.

Assim, o município passou gradualmente a investir na imagem de destino de inverno.

O turismo, então, consolidou-se como uma das principais atividades econômicas da cidade e ajudou a estimular hotéis, restaurantes, comércio e serviços.

Arquitetura europeia ajudou a criar a ‘Suíça brasileira’

A transformação turística também alterou a arquitetura de Campos do Jordão.

Segundo Agnes Yuri Uehara Bezerra, professora de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Estadual de Minas Gerais e ex-professora do Instituto Federal de São Paulo (IFSP) em Campos do Jordão, o município passou a buscar referências em países com climas semelhantes.

Entre essas inspirações estava justamente a Suíça.

No entanto, a arquitetura encontrada atualmente na cidade não pertence a um único padrão. Segundo a especialista, o estilo de Campos do Jordão pode ser considerado eclético.

Portanto, a aparência europeia que ajudou a popularizar o apelido de “Suíça brasileira” representa apenas uma parte da identidade local.

Por trás das fachadas que atraem turistas, a formação da cidade também preserva elementos diretamente relacionados à história brasileira e portuguesa.

Estrada de Ferro acelerou desenvolvimento de Campos do Jordão

Outro momento decisivo ocorreu com a construção da Estrada de Ferro Campos do Jordão, inaugurada em 1914.

Segundo Edmundo Rocha Campos, o português Sebastião de Oliveira Damas liderou a obra e trouxe trabalhadores de Castelo de Paiva, em Portugal, para participar da construção da ferrovia.

A chegada desses trabalhadores fortaleceu a presença portuguesa no município.

Além disso, a ferrovia facilitou o acesso à região e contribuiu para o crescimento de Campos do Jordão. Com isso, a cidade ganhou melhores condições para receber pacientes e, posteriormente, visitantes.

As famílias portuguesas que permaneceram no município também abriram negócios e criaram vínculos que atravessaram gerações.

Famílias portuguesas mantêm tradições na cidade

A trajetória do empresário Nelson Gonçalves exemplifica essa ligação entre imigração, sanatórios e desenvolvimento econômico.

Segundo ele, um tio chegou a Campos do Jordão para tratar a própria saúde e acabou permanecendo na cidade. Depois, outros integrantes da família também se mudaram para o município.

“Meu tio veio pra se curar, acabou se estabelecendo aqui. Minha mãe e meu pai vieram pra ajudar e montaram o comércio próprio”, contou.

A família também preservou parte da cultura portuguesa por meio da gastronomia.

Além do tradicional bacalhau, o restaurante mantido pela família oferece pratos como alheira e borrego.

Assim, a influência portuguesa permanece presente não apenas na história da cidade, mas também no comércio e na culinária encontrados atualmente.

Migração brasileira também ajudou a formar Campos do Jordão

Apesar da forte presença portuguesa e da arquitetura inspirada na Europa, Campos do Jordão não se desenvolveu apenas a partir da imigração europeia.

A formação social do município também recebeu a contribuição de famílias vindas de outras partes do Brasil, incluindo o Nordeste.

Essa presença ajuda a revelar uma identidade mais diversa do que aquela normalmente apresentada pela imagem turística da “Suíça brasileira”.

No entanto, o material apresentado detalha principalmente a participação portuguesa na formação da cidade e não traz nomes, períodos ou exemplos específicos suficientes sobre as famílias nordestinas. Por isso, a dimensão dessa contribuição não pode ser quantificada apenas com as informações disponíveis.

Ainda assim, a presença de diferentes grupos reforça o caráter miscigenado de uma cidade cuja imagem pública ficou fortemente associada à estética europeia.

Campos do Jordão espera 2,2 milhões de turistas no inverno

Hoje, o turismo representa uma das marcas mais conhecidas de Campos do Jordão.

A cidade estima receber aproximadamente 6 milhões de visitantes ao longo do ano, enquanto cerca de 2,2 milhões devem passar pelo município somente durante a temporada de inverno.

O clima ameno, a gastronomia, as paisagens naturais e a arquitetura continuam entre os principais atrativos.

Entretanto, conhecer a história de Campos do Jordão também permite compreender que a chamada “Suíça brasileira” tem raízes profundamente brasileiras.

Portugueses participaram da fundação, da construção da ferrovia e do desenvolvimento econômico. Ao mesmo tempo, brasileiros de diferentes origens ajudaram a formar a sociedade local. Além disso, os ciclos dos sanatórios e do turismo transformaram a economia ao longo de mais de um século.

Assim, por trás das construções que lembram cidades europeias, Campos do Jordão reúne uma história de imigração, migração e diversidade que ajudou a construir um dos destinos turísticos mais conhecidos do Brasil.

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